Uma das primeiras dúvidas das famílias é: “quanto tempo meu familiar vai precisar ficar internado?” Embora pareça uma pergunta simples, a resposta envolve diversos fatores emocionais, físicos e comportamentais. Não existe um tempo fixo para todos os pacientes — o tratamento é individualizado, e isso faz toda a diferença nos resultados.
Nas clínicas de recuperação modernas, o tratamento é dividido em fases estruturadas, cada uma com finalidades específicas. Compreender essa jornada ajuda a família a acompanhar o processo com mais tranquilidade e clareza.
Por que a duração varia tanto?
A dependência química não é igual para todos. Cada paciente chega à clínica com:
-
uma história diferente,
-
níveis variados de consumo,
-
traumas emocionais,
-
gatilhos específicos,
-
resistência física distinta,
-
comorbidades psiquiátricas,
-
graus diferentes de motivação.
Além disso, o tempo de recuperação também depende da substância usada. Drogas como álcool e crack têm impactos diferentes no organismo, exigindo abordagens específicas.
Um exemplo importante é o artigo do Circuito da Saúde que explica como funciona a duração do tratamento em uma clínica de recuperação, mostrando por que o tempo de internação varia de acordo com fatores emocionais, físicos e comportamentais do paciente: https://circuitodasaude.com.br/noticias/como-funciona-a-duracao-do-tratamento-em-uma-clinica-de-recuperacao/
Isso mostra que cada paciente tem um processo único, e a duração do tratamento deve respeitar essa individualidade.
As principais fases do tratamento
1. Desintoxicação (7 a 15 dias)
Primeira etapa do tratamento.
O objetivo é:
-
estabilizar o organismo,
-
reduzir sintomas de abstinência,
-
monitorar riscos médicos,
-
preparar o paciente para as fases terapêuticas.
É o período mais delicado, pois o corpo entra em choque pela ausência da substância.
2. Adaptação e conscientização (15 a 30 dias)
Aqui, o paciente começa a:
-
entender sua condição,
-
aceitar o tratamento,
-
iniciar sessões terapêuticas,
-
restabelecer padrões emocionais básicos,
-
criar rotina e disciplina.
É quando muitos começam a perceber que a dependência é uma doença — e não falta de caráter.
3. Tratamento terapêutico intensivo (60 a 120 dias)
É a fase mais importante da internação.
O paciente passa por:
-
terapia individual,
-
psicoterapia cognitiva,
-
terapia motivacional,
-
grupos terapêuticos,
-
atividades ocupacionais,
-
reconstrução emocional,
-
reflexões sobre comportamento e escolhas.
Aqui, começa a mudança profunda na forma de pensar e lidar com emoções.
4. Reestruturação comportamental e fortalecimento (30 a 60 dias)
Nessa etapa, o foco é:
-
desenvolver autonomia,
-
identificar gatilhos internos,
-
fortalecer a resiliência emocional,
-
trabalhar limites e responsabilidades,
-
aprender estratégias sólidas de prevenção de recaída.
O paciente se prepara para voltar ao convívio social com mais estabilidade e clareza.
5. Preparação para a reintegração social (10 a 30 dias)
Última fase da internação, que inclui:
-
planejamento de metas,
-
reconstrução familiar,
-
orientação sobre rotina fora da clínica,
-
criação de um plano de manutenção pós-alta,
-
ajustes finais de comportamento.
É o momento de transição entre o ambiente protegido e o retorno à vida cotidiana.
Qual é o tempo médio de tratamento?
Embora cada caso seja único, existe uma média amplamente utilizada nas clínicas especializadas:
Tratamento curto: 60 a 90 dias
Indicado para casos leves e dependência recente.
Tratamento médio: 120 a 150 dias
Indicado para dependência moderada, recaídas anteriores ou comprometimento emocional significativo.
Tratamento longo: 180 dias ou mais
Indicado para casos graves, uso prolongado, dependência de múltiplas substâncias e histórico emocional complexo.
Quanto maior a complexidade, mais tempo o cérebro precisa para reconstruir padrões saudáveis.
Por que tratamentos muito curtos tendem a falhar?
A dependência não é apenas física. A parte emocional e comportamental demora muito mais tempo para se reorganizar.
Quando o tratamento é curto demais:
-
as emoções não são trabalhadas,
-
a impulsividade permanece,
-
os gatilhos continuam ativos,
-
não há fortalecimento emocional,
-
o paciente volta para o mesmo ambiente sem preparo.
E isso aumenta drasticamente o risco de recaída.
O tratamento continua após a alta?
Sim! E essa é uma das partes mais importantes.
Após a alta, o paciente deve continuar com:
-
psicoterapia semanal,
-
grupos de apoio,
-
acompanhamento psiquiátrico quando necessário,
-
rotina estruturada,
-
ambiente familiar saudável,
-
atividades que reforcem autoestima e disciplina.
A internação é apenas o recomeço — a consolidação acontece do lado de fora.
Cada paciente tem seu tempo — e tudo bem
O que realmente importa não é a rapidez, mas a profundidade do processo.
Quando o tratamento respeita:
-
o ritmo,
-
as necessidades emocionais,
-
o histórico,
-
e a realidade do paciente,
o resultado é muito mais sólido, humano e duradouro.